LITERATURA MINIMALISTA - CURTA CONTOS - MICROCONTO
Foi
um choque! Depois de dezessete anos de casado, flagrar um outro homem fazendo a
barba no meu banheiro! Espantoso como os filhos crescem de repente. (JDamasio/ @JulioDamasio)
Literatura minimalista
A literatura minimalista é caracterizada pela
economia de palavras. Os autores minimalistas evitam advérbios e preferem sugerir contextos a ditar
significados. Espera-se dos leitores uma participação ativa na criação da
história, pois eles devem “escolher um lado”, baseados em dicas e insinuações,
ao invés de representações diretas. As personagens de histórias minimalistas
tendem a ser banais, comuns, inexpressivas, nunca famosos detetives ou ricos
fabulosos. Geralmente, as histórias são pedaços da vida.
A
raiz da literatura minimalista americana é o trabalho de Ernest
Hemingway, e um dos melhores exemplos desse estilo é o seu
"Hills Like White Elephants". Como Hemingway nunca descreve a
entonação que a personagem assume quando fala, o leitor é forçado a
interpretá-la baseado na resposta. Além disso, apesar da paisagem ser parte
integrante de uma história, ela nunca é explicitada no minimalismo. O nome mais
associado a literatura minimalista, entretanto, é o do norte-americano Raymond
Carver. Em contos de pouquíssimas linhas o autor procura captar a
vida através de ângulos e personagens simples, inesperadamente transformados em
figuras e fatos insólitos, misteriosos, mentirosos.
No Brasil tem crescido muito a produção de minicontos (ou microcontos), gênero associado ao
minimalismo. Nesse sentido a obra Ah,
é?, publicada por Dalton
Trevisan em 1994, é considerada
obra-prima do estilo minimalista.
Em
2004 o escritor Marcelino Freire resolve radicalizar e lança o livro Os Cem Menores Contos Brasileiros
do Século, em que convida cem autores para escrever histórias de até 50
letras (sem contar título e pontuação). No ano seguinte, a Editora Casa Verde leva a idéia para o Rio Grande do
Sul, lança o Contos
de Bolso, e desta obra surge o que talvez seja o menor conto já produzido
em Língua Portuguesa, de Luís Dill: Aventura Nasceu.
Seguindo
essa tendência, vários escritores de literatura minimalista foram surgindo,
entre eles Edson Rossatto, Carlos Seabra, Tiago Moralles e Samir Mesquita.
Ainda
com referência a esse estado, o "Estórias Curtas", programa de cerca
de 20 minutos exibido pela RBS TV, é outro bom exemplo de minimalismo
incorporado a filmes de curta-metragem.
Literatura minimalista na INTERNET – Twitter – curta contos
(microcontos)
A hora de escrever
textos curtos no Twitter. A ferramenta, que permite publicações de até 140
caracteres e está cada vez mais popular na internet. Misto de blog e rede
social, o Twitter virou febre na internet e agora ganha status de ferramenta
pedagógica nas aulas de Língua Portuguesa. Usado como meio de comunicação e
informação, o site só permite textos de, no máximo, 140 caracteres. O que é bem
pouco (para efeito comparativo, a primeira frase desta reportagem tem
exatamente o tamanho permitido). As postagens precisam ser sintéticas para
caber nesse espaço reduzido e elas têm uma função comunicativa real (o que é
fundamental ao trabalhar com produção de textos na escola). Não é exagero
nenhum chamar os tuítes (como as postagens são conhecidas) de um novo gênero
textual.
Um dos primeiros
artigos científicos a investigar as possibilidades didáticas dessas publicações
foi escrito pelas professoras Mirta Castedo e Natalia Zuazo, da Universidade
Nacional de La Plata, na Argentina. Em Culturas
Escritas y Escuela: Viejas e Nuevas Diversidades, elas mostram como o
Twitter permite trabalhar com versões reduzidas de notícias e de contos.
"O professor pode usá-lo para gerar interesse na construção de composições
curtas e explorar diferentes funções nos textos, como informar, gerar reflexão
e criar situações de humor", explica Natalia. As reflexões das professoras
argentinas deram origem a esta reportagem.
Qualquer
assunto pode se transformar em um tuíte
Para começar o
trabalho, apresente aos estudantes diferentes modelos de contos curtos, que
podem vir dos vários livros escritos e, claro, de uma boa pesquisa no Twitter
(leia o projeto didático no quadro da página 78). Há uma série de perfis
dedicados exclusivamente aos microcontos, como @marcelinofreire e @microcontos.
"É importante diversificar os autores e enredos. Conhecer todo esse
universo mostrará aos alunos as diversas possibilidades. Eles podem escrever
sobre qualquer coisa de que gostam", diz Samir Mesquita, escritor
paranaense que já publicou dois livros de microcontos.
No artigo sobre o
tema, Mirta ressalta a necessidade de trabalhar a função do Twitter e o que
muda quando a rede é utilizada. Segundo ela, além das perguntas fundamentais
para atividades com qualquer gênero (para quem estou escrevendo? Qual o
contexto da escrita?), é preciso considerar o processo de produção e as
características da internet, como a interatividade e os comentários. Isso pode
enriquecer muito as discussões. A
publicação dos textos na rede permite múltiplas leituras. Quanto mais pessoas
lendo, maiores são as possibilidades de interpretação. Isso dá mais riqueza ao
texto. "O que escrevemos em um microconto é apenas 10% da história. O
resto se constrói na cabeça de quem lê", explica Mesquita. "A palavra
implícita e a pausa de uma vírgula ou de um ponto, por exemplo, proporcionam
diferentes impactos sobre os leitores, como qualquer grande obra
tradicional", conta ele. Mais do que contar uma história, contos curtos
têm o poder de sugeri-la.
No Colégio Hugo
Sarmento, em São Paulo, o professor Tiago Calles percebeu a utilidade que o
Twitter poderia ter em suas aulas de Língua Portuguesa. Ele escolheu trabalhar
a escrita autoral de microcontos -- que em uma definição possível são histórias
curtas e objetivas, sem muitos elementos narrativos: "Os estudantes sabiam
que o texto que escreveriam estaria publicado na internet e seria lido por
muitas pessoas. A partir daí, a dedicação foi tanta que começaram não só a
policiar os errinhos mas também discutir com os colegas formas de melhorar o
conto", explica.
Discussões como essas
devem ocorrer desde o início da produção, mas até elas começarem cabe ao
professor apontar maneiras de melhorar e diminuir o texto. "É importante
que, no começo, os alunos não fiquem restritos aos 140 caracteres, mas que
escrevam um conto comum, pensando que ele precisará ser sintetizado",
explica Jorge Luiz Marques, professor do Colégio Pedro II, no Rio de Janeiro.
Os alunos precisam de tempo para praticar. Começar limitando a escrita reduzirá
a capacidade criativa e não oferecerá um exercício tão efetivo de síntese do
que foi redigido.
Outro bom uso do Twitter é a reescrita de notícias com o mesmo
objetivo: refletir sobre a síntese. Os alunos podem ouvir ou ler algumas delas
e replicá-las em 140 caracteres. "É um bom trabalho para as séries finais,
já que também inteira o jovem sobre o que está se passando no mundo", diz
Marques.
Referências
ARGAN, Giulio Carlo; Arte moderna; São Paulo:
Companhia das Letras, 1992. ISBN
85-7164-251-6
BATCHELOR, David; Minimalismo; São Paulo: Editora
Cosac e Naify, 1991. ISBN
85-86374-28-8
BATTCOCK, Gregory; Minimal Art: A Critical Anthology;
California: University of California Press, 1995.
BERTONI, Franco; Minimalist Design; Switzerland:
Birkhäuser, 2004.
CHOMSKY, Noan; The Minimalist Program. MIT
Press, 1995.
LUCIE-SMITH,Edward; Os Movimentos Artísticos a Partir
de 1945; São Paulo: Editora Martins Fontes, 2006. ISBN: 8533623127
MARZONA, Daniel; Minimal Art; Taschen, 2005.
MONROE, Tânia Camila - http://educarparacrescer.abril.com.br/aprendizagem/hora-escrever-textos-curtos-twitter-636237.shtml
Revista Escola/09/08/2011
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