sexta-feira, 22 de abril de 2011

Cordel

Literatura de Cordel



TEORIA DO CORDEL - Resumo
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2 jan
Compadre Lemos

Amigos,

Na esperança de continuar ajudando aos Poetas e Poetisas Iniciantes, pelos quais temos o maior carinho e respeito, coletamos as informações abaixo para compor o presente Estudo Teórico do Cordel.

Por favor, leiam com atenção pois, quanto mais estudarmos, mais condições teremos de compor estrofes tecnicamente corretas. Vamos ao Estudo:

TEORIA DO CORDEL - RESUMO

*1 - Sextilha

*2 - Sete Linhas, Sete Pés, Septilha ou Setilha

*3 - Décima de Sete Pés.

*4 - Martelo Agalopado

*5 - Galope a Beira-Mar

*6 – Metrificação e Ritmo

*7 – Nota Final

***

* 1. - Sextilha:

Talvez, por ser mais fácil, seja o gênero preferido pelos nossos repentistas, principalmente no início das apresentações.

A Sextilha é uma estrofe com rimas pares, constituída de seis "linhas", ou seis versos de sete Sílabas Poéticas cada um. (Versos Heptassílabos).
Na Sextilha, rimam as linhas pares entre si, conservando demais sem rima obrigatória.

Esquema:

X
A
X
A
X
A

(Onde as linhas X não precisam rimar e as linhas A rimam entre si).

Leandro Gomes de Barros, grande escritor da Literatura de Cordel, filho de Pombal, Estado da Paraíba, escreveu:

Meu verso inda é do tempo
Que as coisas eram de graça:
Pano medido por vara,
Terra medida por braça,
E um cabelo da barba
Era uma letra na praça.

Outro exemplo que daremos é o do ceguinho anônimo, que, após a morte de sua desventurada mãe e guia, chorou, com os olhos d'alma, seu infortúnio:

Já tive muito prazer,
Hoje só tenho agonia!
Não sinto porque sou cego,
Eu sinto é falta do guia!
Quando mamãe era viva,
Eu era um cego que via!

2 jan
Compadre Lemos

* 2. - Septilha ou Setilha ( Sete Linhas ou Sete Pés).

No início do século atual, o Cantador alagoano Manoel Leopoldino de Mendonça Serrador fez uma adaptação à Sextilha, criando o estilo de sete versos, também chamado de "Sete Linhas" ou de "Sete Pés", rimando os versos pares até o quarto, como na Sextilha; o quinto rima com o sexto, e o sétimo com o segundo e o quarto.

Exemplifiquemos com o próprio criador do gênero:

Amigo José Gonçalves,
Amanhã cedinho, vá
A Coatis, onde reside.
Compadre João Pirauá
Diga a ele dessa vez
Que amanhã é fim de mês,
Deus querendo, eu chego lá!

José Duda do Zumbi (Manoel Galdino da Silva Duda), no ocaso da vida, com a experiência da idade, disse para José Miguel, jovem companheiro, com quem duelava:

Fui moço, hoje estou velho!
Pois o tempo tudo muda!
Já fui um dos cantadores
Chamado Deus nos acuda...
Este que estão vendo aqui
Foi Zé Duda do Zumbi!
Hoje, é Zumbi do Zé Duda!

2 jan
Compadre Lemos

* 3 – Décima de Sete Pés

Embora de origem clássica, a Décima de Sete Pés ( ou simplesmente “Décima”) é um estilo muito apreciado, desde os primórdios da Poesia Popular, principalmente por ser o gênero escolhido para os motes, onde os cantadores fecham cada estrofe com os versos da sentença dada, passando a estrofe a receber a denominação de "Glosa".
( Estudaremos o Mote e a Glosa, no próximo íntem ).

Como o próprio nome diz, a Décima é uma estrofe de dez versos de sete Sílabas Poéticas, assim distribuídos: o primeiro, rima com o quarto e o quinto; o segundo, com o terceiro; o sexto, com o sétimo e o décimo, e o oitavo, com o nono. Podemos assim representar essa distribuição: A B B A A C C D D C, ou ainda, na vertical:

A
B
B
A
A
C
C
D
D
C

De Antônio Ugolino Nunes da Costa (Ugolino do Sabugi), primeiro grande Cantador brasileiro, extraímos esta estrofe, em Décima, de seu famoso poema "As obras da Natureza":

A As obras da Natureza
B São de tanta perfeição,
B Que a nossa imaginação
A Não pinta tanta grandeza!
A Para imitar a beleza
C Das nuvens com suas cores,
C Se desmanchando em louvores
D De um manto adamascado
D O artista, com cuidado,
C Da arte, aplica os primores

2 jan
Compadre Lemos

Nota: O Mote e a Glosa:

O Mote é uma sentença ou pensamento, formado de um ou dois versos, com que se finalizam as estrofes.

O Mote serve também para se dar o tema da estrofe, pois é sobre o seu conteúdo que se deve versar.

Uma estrofe que responde a um Mote passa a se chamar “Glosa”.

Exemplo 1 - Mote de Uma Linha ou de Um Verso:

Mote: Quero aprender a rimar!

Glosa:

Eu quero contar histórias
Em versos de bom Cordel
Para cumprir meu papel
Narrando, do povo, as glórias!
Eu quero lembrar vitórias
Amores quero cantar,
Pois vejo o tempo passar
E tenho meu compromisso...
Mas, amigo, antes disso,
Quero aprender a rimar!


Exemplo 2: Mote de Duas Linhas ou Dois Versos:

Mote:

“Quem não veio por amor
Aqui não deve ficar”.

Glosa:

Milagre, na Cantoria
É o tinir da viola!
O Cordel é uma escola
De paz, amor e harmonia!
Seja noite, seja dia,
Prosseguimos a cantar
E o verso vem expressar
Nosso carinho ao labor...
Quem não veio por amor
Aqui não deve ficar!

2 jan
Compadre Lemos

* 4 - Martelo Agalopado

O Martelo Agalopado, criação do genial violeiro paraibano Silvino Pirauá Lima, é uma estrofe de dez versos de dez Sílabas Poéticas cada, ( Versos Decassílabos), obedecendo à mesma Distribuição de Rima dos versos da Décima.

A Quando as tripas da terra mal se agitam,
B E os metais derretidos se confundem,
B E os escuros diamantes que se fundem,
A Da cratera ao ar se precipitam.
A As vulcânicas ondas que vomitam
C Grossas bagas de ferro incendiado,
C Em redor, deixam tudo sepultado
D Só com o som da viola que me ajuda,
D Treme o sol, treme a terra, o tempo muda,
C Eu cantando Martelo Agalopado.

O Martelo Agalopado é muito usado, também, em Cantorias, para o exercício do Mote e da Glosa, da mesma forma que a Décima de Sete Pés.

Exemplo: ( Mote de Dois Versos, para Martelo Agalopado).

Mote:
"Seu Poder ultrapassa o Infinito,
Ele é Deus, o Senhor da Natureza"

Glosa:

E quem fez tudo isso, eu lhe pergunto,
Me responda, Compadre, se puder,
Fez o homem e também fez a mulher,
Fez os bichos, pra gente viver junto.
E tornou-se o Senhor de Todo Assunto,
Desde o Micro até o Macro, em Realeza,
É o Senhor da Poesia e da Beleza,
É o Nome, entre todos, mais bonito,
Seu Poder ultrapassa o Infinito...
Ele é Deus, o Senhor da Natureza!

2 jan
Compadre Lemos

* 5 - Galope a Beira-Mar

Gênero muito apreciado pelos Apologistas da Poesia Popular, recebeu também a denominação de “Décima de Versos Compridos”.

O Galope é empregado mais em temas praieiros. É constituído de Estrofes de dez versos de onze sílabas, seguindo a mesma distribuição de rimas da Décima, sendo que o último verso deve, invariavelmente, terminar com a palavra MAR.

Foi criado pelo violeiro cearense José Pretinho, filho de Morada Nova, vaqueiro do "coronel" José Ambrósio, falecido em Lavras da Mangabeira.

Contam que José Pretinho, após levar uma surra, em Martelo, de Manoel Vieira Machado, Cantador piauiense, veio a Fortaleza e, na Praia de Iracema, observando o mar, cujo movimento das ondas se parecia com o galope dos cavalos da fazenda do "coronel" Ambrósio, teve a genial idéia de usar o ritmo do tropel dos cavalos em um Estilo de Cantoria.

Criado o estilo, procurou o adversário para a desforra. Deixou-o aniquilado.

O Poeta e Cantador Mergulhão de Sousa divulgou o gênero por todo o Nordeste.

Dimas Batista, cantando no Teatro Santa Isabel, em Recife, improvisou sob aplausos:

A Cantando Galope ninguém me humilha,
B Pois tudo que existe no mar aproveito,
B Na ilha, no cabo, península, estreito,
A Estreito, península, no cabo, na ilha,
A No barco, na proa, em bússola e milha!
C Medindo a distância eu vou viajar,
C Não quero, da rota, jamais me afastar,
D Porque me afastando o destino saí torto;
D Confio em Deus pra avistar o meu porto,
C Cantando Galope na beira do mar!

Observação Importante:

Não se usa Mote nem Glosa, em Galope a Beira Mar, porque o último verso já nasce comprometido com a palavra "MAR", com a qual se deve fechar a estrofe.

Normalmente usam-se, para fechar as estrofes, os versos-padrão:

"Cantando Galope na beira do mar"

ou

"Nos Dez de Galope, na beira do mar".

2 jan
Compadre Lemos

* 6 - Metrificação e Ritmo

Métrica ou Metrificação é a a ciência que nos ensina os elementos necessários à feitura de versos medidos ( ou metrificados). A Métrica é obtida pela contagem das Sílabas Poéticas.
Deve-se observar, a princípio, que a Contagem de Sílabas Poéticas difere, em função do ritmo, da Contagem de Sílabas Gramaticais.
Assim, o verso “ Milena chega em novembro”, gramaticalmente, tem 9 sílabas

MI LE NA CHE GA EM NO VEM BRO

Mas, na Contagem Poética, ( que obedece ao Ritmo do Canto ou Declamação do verso) encontramos apenas sete Sílabas Poéticas:

MI LE NA CHE GAEM NO VEM ( bro).

Vamos entender melhor essa divisão, ao estudarmos as regras abaixo:

2 jan
Compadre Lemos

Regra 1 – Contam-se as Sílabas Poéticas somente até a sílaba tônica da última palavra do verso.

Sílaba Tônica é a sílaba mais forte de qualquer palavra.

Exemplos:

Só = Sílaba Tônica = "só" ( só tem ela, então é ela mesma!)
Á gua = Silaba Tônica = " a"
Ca fé = Silaba Tônica = "fé"
Ár vo re = Silaba Tônica = "ar"
Ba la da = Sílaba Tônica "la"
Ma na cá = Sílaba Tônica "ca"
Pe né lo pe = Sila tônica "né"
A me tis ta = Sílaba Tônica "tis"
Bo ro go dó = Sílaba Tônica "dó"
Pa ra le le pí pe do - Sílaba Tônica - "pi"

Assim, não se contam as sílabas que estiverem depois da sílaba tônica da última palavra do verso.

Ou ainda:

A última sílaba que se conta, em cada verso, é a tônica da sua última palavra.

Exemplo:

EU VI MI NHA MÃE RE ZAN (do) = 7 Sílabas Poéticas
AOS PÉS DA VIR GEM MA RI (a) = 7 Sílabas Poéticas
E RAU MA SAN TAES CU TAN (do) = 7 Sílabas Poéticas
O QUEOU TRA SAN TA DI ZI (a) = 7 Sílabas Poéticas

Oservação: A sílaba entre parêntesis ( __ ) não é contada, porque é uma sílaba átona ( ou "não-tônica), que está depois da sílaba tônica da última palavra do verso

2 jan
Compadre Lemos

Regra 2 - Embebimento – Junção de Vogais

Podem-se juntar DUAS SÍLABAS GRAMATICAIS em UMA SÓ SÍLABA POÉTICA, desde que a primeira sílaba termine com uma Vogal Átona ou e a segunda sílaba comece por Vogal.

Diz-se que houve "Embebimento de uma sílaba na outra.

Exemplos:

"Falar de outras serventias"

FA LAR DE OU TRAS SER VEN TI (as) = 8 Sílabas Poéticas. Mas...

FA LAR DEOU TRAS SER VEN TI (as) = 7 Sílabas Poéticas

"Fazer o amor ser verdade"

FA ZER O A MOR SER VER DA (de) = Oito Sílabas Poéticas. Mas...

FA ZER OA MOR SER VER DA (de) = Sete Sílabas Pooéticas.

"Meu compadre, atenção, que eu vou dizer"

MEU COM PA DRE A TEN ÇÃO QUE EU VOU DI ZER = Doze Sílabas Poéticas. Mas...

MEU COM PA DREA TEN ÇÃO QUEEU VOU DI ZER = Dez Sílabas Poéticas.

"Eu nunca falei da preguiça de amar"

EU NUN CA FA LEI DA PRE GUI ÇA DE A MAR = 12 Sílabas Poéticas. Mas...

EU NUN CA FA LEI DA PRE GUI ÇA DEA MAR = 11 Sílabas Poéticas.

2 jan
Compadre Lemos

Regra 3 - Hiatos e Ditongos - Sinérese e Diérese

Hiato - Duas vogais próximas, em sílabas diferentes:
Exemplo: SA Ú VA - ( o A perto do U, mas em sílabas diferentes)

Ditongo Duas vogais juntas, muma mesma sílaba
Exemplo: SAU DA DE - o A e o U juntos, na mesma sílaba ( SAU).

Para atender à métrica, Hiatos podem se transformar em Ditongos (Sinérese) e Ditongos podem se transformar em Hiatos (Diérese) Exemplos:

Su-a-ve por Sua-ve (três sílabas viram duas)

Ouvimos suave canto

OU VI MOS SU A VE CAN (to) = 7 Sílabas Poéticas.

ou OU VI MOS SUA VE CAN (to) = 6 Sílabas Poéticas.

Ou, ainda:

Sau-da-de por Sa-u-da-de (três sílabas viram quatro)


A SA U DA DE MA TA DEI (ra) = 8 Sílabas Poéticas.

A SAU DA DE MA TA DEI (ra) = 7 Sílabas Poéticas.


ESTUDO ESPECÍFICO SOBRE METRIFICAÇÃO - Resumo:

Estudo Específico Sobre Metrificação - Resumo

(Compadre Lemos)

Amigos,
Face ao grande número de pessoas que, na melhor das intenções, se interessa pela Literatura de Cordel na Internet – principalmente no Orkut;

Face às dificuldades que todo principiante tem quanto à Metrificação – uma exigência do Cordel;

E em virtude da absoluta necessidade dos versos serem metrificados, conforme as exigências de cada Estilo de Cordel,

Resolvi escrever este Estudo Específico Sobre Metrificação e postá-lo em todas as Comunidades de Cordel.

Assim, quem sabe, os mais interessados possam dele se servir, no momento de postar estrofes nessas Comunidades.

Então, vamos ao Estudo:

1 – Metrificação

Chama-se Metrificação a exigência da Poesia – seja clássica ou popular – da contagem de Sílabas Poéticas de cada verso escrito, de acordo com os Estilos de Poesia.

Como qualquer poema é feito para ser declamado ou cantado, o seu conteúdo tem, por obrigação, que “caber” em uma determinada “melodia” ou “ritmo”. Esse “tamanho” exato – para que ele “caiba” nesse ritmo ou melodia é dado, então, pelo número de Sílabas Poéticas de cada verso.

Assim, temos, por exemplo, em uma Quadra ou Trova:

Número de versos: Quatro (4)
Número de sílabas poéticas por verso = Sete ( Exigência do Estilo Trova).

Pra fazer boa poesia,
Põe amor no coração!
Abre teu peito e confia
Na tal Metrificação.

Analisando:

PRA FA ZER BO A POE SI (a) = sete Sílabas Poéticas.
PÕE A MOR NO CO RA ÇÃO = sete Sílabas Poéticas.
A BRE TEU PEI TOE COM FI (a) = sete Sílabas Poéticas.
NA TAL ME TRI FI CA ÇÃO = sete Sílabas Poéticas.

2 jan
Compadre Lemos

Observações:
1 – Note que a contagem das Sílabas Poéticas é, em alguns casos, DIFERENTE da contagem das Sílabas Gramaticais. Deve-se seguir, na Contagem Poética, o ritmo da declamação ou do “cantar” de cada verso.

Exemplo:

Contagem Gramatical: PRA FA ZER BO A PO E SI A – Nove sílabas gramaticais.

Contagem Poética: PRA FA ZER BO A POE SI (a) Sete Sílabas Poéticas.

Isto se dá por dois motivos:

MOTIVO 1 – Só se contam as Sílabas Poéticas ATÉ A SÍLABA TÔNICA DA ÚLTIMA PALAVRA DE CADA VERSO. ( Sílaba tônica é a sílaba mais forte da palavra) desprezando-se o que vem depois dela.

PRA FA ZER BO A POE SI (a) - A sílaba tônica de poeSIa é a sílaba SI. Portanto, a sílaba “a” que vem depois dela, NÃO É CONTADA. ( por isso está entre parêntesis e em minúscula, na contagem).

MOTIVO 2 – Para se obedecer ao ritmo da declamação do verso, pode-se juntar duas sílabas em uma só, desde que a primeira SEJA OU TERMINE EM VOGAL e a segunda SEJA OU COMECE POR VOGAL.

Exemplo:
PRA FA ZER BO A POE SI (a) – juntou-se a sílaba PO com a sílaba E, fazendo a Sílaba Poética “POE”, que no declamar do poema, é dita de uma única vez, como se fosse, realmente, uma única sílaba.

Outro exemplo:
A BRA TEU PEI TOE COM FI (a) - Juntou-se TO com E para fazer a Sílaba Poética “TOE”, que, no declamar do poema, é dita de uma única vez, como se fosse, realmente, uma única sílaba.

Agora, faça um exercício: Fale, em voz alta, ( declame ) a trova abaixo, CONTANDO NOS DEDOS, pela divisão em Sílaba Poéticas, e veja se não são SETE SÍLABAS POÉTICAS, em cada verso.

PRA FA ZER BO A POE SI (a) ( não conte a última sílaba, pois ela está depois da última tônica)
PÕE A MOR NO CO RA ÇÃO ( a última deve ser contada, pois ela é a sílaba tônica de “coracão”).
A BRE TEU PEI TOE CON FI (a)
NA TAL ME TRI FI CA ÇÃO

2 jan
Compadre Lemos

Contou? Deu sete sílabas poéticas por verso? Então...

Então... acostume-se a fazer isso ( declamar, contando nos dedos ) com todas as estrofes que você escrever. Tenho certeza que você vai errar bem menos!

2 – A Metrificação Nos Diversos Estilos de Cordel

Estilo 1 - A Trova ou Quadra

Começamos este Estudo analisando uma Trova ( ou Quadra).
Portanto, já sabemos que este Estilo é composto por estrofes de 4 versos, cada verso contendo 7 Sílabas Poéticas. ( chamados Versos Heptassílabos).
Distribuição de Rimas: A B A B ( o primeiro verso rima com o terceiro, e o segundo, com o quarto).

Vejamos, mais um exemplo:

Se metrificar direito
Uma estrofe bem rimada
Fica linda, desse jeito,
Serve até pra ser cantada!

SE ME TRI FI CAR DI REI ( to ) 7 SP
U MAES TRO FE BEM RI MA ( da ) 7 SP
FI CA LIN DA DES SE JEI ( to ) 7 SP
SER VEA TÉ PRA SER CAN TA (da ). 7 SP

( SP = Sílaba Poética).

Estilo 2 – A Sextilha

Estilo muito popular na Literatura de Cordel. Um dos mais fáceis. Cada estrofe é formada de seis versos e cada verso deve ter sete Sílabas Poéticas ( Heptassílabos).
Distribuição de Rimas: XAXAXA – ( Os versos 1, 3 e 5 não precisam rimar. Os versos 2, 4 e 6 rimam entre si).
Exemplo:

Sem a Metrificação
Não se pode ter Poesia.
É ela quem vai ditar
O andar da melodia
O verso fica bonito,
Com ritmo e com harmonia!

SEM A ME TRI FI CA ÇÃO = 7 SP
NÃO SE PO DE TER POE SI (a) = 7 SP
É E LA QUEM VAI DI TAR= 7 SP
O AN DAR DA ME LO DI (a) = 7 SP
O VER SO FI CA BO NI ( to ) = 7 SP
COM RIT MOE COM HAR MO NI (a) = 7 SP

2 jan
Compadre Lemos

Estilo 3 – A Septilha ou Setilha

Talvez o mais popular dos Estilos, a Septilha é composta de sete versos, cada verso tendo sete Sílabas Poéticas ( Heptassílabos )
Distribuição de Rimas: XAXABBA ( Os versos 1 e 3 não precisam rimar. Os versos 2, 4 e 7 rimam entre si. E os versos 5 e 6 também rimam entre si).
Exemplo:
Poeta principiante,
Eu vou lhe dar uma dica:
Quem estuda sempre aprende
Quem aprende, melhor fica.
Use a metrificação
Use amor, use atenção,
E faça Poesia Rica!

PO E TA PRIN CI PI AN (te) = 7 SP
EU VOU LHE DAR U MA DI (ca) = 7 SP
QUEM ES TU DA SEM PREA PREN (de) = 7 SP
QUEM A PREN DE ME LHOR FI (ca) = 7 SP
U SEA ME TRI FI CA ÇÃO = 7 SP
U SEA MOR U SEA TEN ÇÃO = 7 SP
E FA ÇA POE SI A RI (ca) = 7 SP

Estilo 4 – A Décima de Sete Pés

Sendo um Estilo mais usado em Cantorias ao vivo, ao som de violas, nos desafios entre Repentistas, a Décima de Sete Pés é composta de estrofes de dez versos, tendo, cada verso, sete Sílabas Poéticas (Ainda Heptassílabos).

Distribuição das rimas: A B B A A C C D D C

Exemplo:

A - Meu compadre, veja bem
B - Que não vai ter confusão
B - A tal Metrificação
A - Não barra mesmo ninguém
A - Seja aqui, ou no além,
C - Só precisa declamar
C - O verso e verificar
D - Se coube na melodia
D - Se couber, tá tudo em dia,
C - Não tem jeito de errar!

MEU COM PA DRE VE JA BEM= 7 SP
QUE NÃO VAI TER CON FU SÃO= 7 SP
A TAL ME TRI FI CA ÇÃO= 7 SP
NÃO BAR RA MES MO NIN GUÉM= 7 SP
SEJAA QUI OU NO A LÉM= 7 SP
SÓ PRE CI SA DE CLA MAR= 7 SP
O VER SOE VE RI FI CAR= 7 SP
SE COU BE NA ME LO DI ( a ) = 7 SP
SE COU BER TÁ TU DOEM DI (a) = 7 SP
NÃO TEM JEI TO DE ER RAR. = 7 SP

2 jan
Compadre Lemos

Estilo 5 – O Martelo Agalopado

Outro Estilo usado em Cantorias e Desafios, o Martelo Agalopado é formado de estrofes de dez versos, tendo, cada verso, dez Sílabas Poéticas – ( Versos Decassílabos ).
Distribuição de Rimas: ABBAACCDDC – A mesma da Décima de Sete Pés.

Exemplo:
Vou falar sobre um tal Mané Papão
Dos poetas que fazem Cantoria,
Que tropeçam na tal da melodia,
Quando pecam na Metrificação.
Se contarem com zelo e atenção
Cada verso, vão ver, vai se encaixar
A estrofe, tão fácil de cantar
Vai ficar bem mais bela e mais bem-feita,
De outro modo a poesia é suspeita
E “Cordel” não vai ser, posso afirmar!

VOU FA LAR SO BREUM TAL MA NÉ PA PÃO = 10 SP
DOS PO E TAS QUE FA ZEM CAN TO RI (a) = 10 SP
QUE TRO PE ÇAM NA TAL DA ME LO DI ( a ) = 10 SP
QUAN DO PE CAM NA ME TRI FI CA ÇÃO. = 10 SP
SE CON TA REM COM ZE LOE A TEN ÇÃO= 10 SP
CA DA VER SO VÃO VER VAI SEEN CAI XAR = 10 SP
A ES TRO FE TÃO FÁ CIL DE CAN TAR= 10 SP
VAI FI CAR BEM MAIS BE LAE MAIS PER FEI (ta) = 10 SP
DEOU TRO MO DO A POE SI A É SUS PEI (ta) = 10 SP
E COR DEL NÃO VAI SER POS SOA FIR MAR. = 10 SP

2 jan
Compadre Lemos

Estilo 6 – O Galope a Beira Mar

O mais difícil de todos os Estilos, usado frequentemente em Desafios e Cantorias, por poetas mais experientes. Compõe-se de estrofes de dez versos, tendo, cada verso, ONZE Sílabas Poéticas, sendo que o último verso de cada estrofe termina, obrigatoriamente, com a palavra MAR. ( Normalmente usam-se os versos-padrão “Cantando Galope na beira do mar” ou “ Nos dez de Galope, na beira do mar”.

Distribuição de Rimas = ABBAACCDDC – A mesma do Martelo e da Décima de Sete Pés.

Exemplo:

Compadre, me diga o que é que eu faço
Eu sei não mereço tamanha atenção
Meu grande problema é Metrificação
Que pega e me prende, tal qual fosse um laço!
No verso eu quero ocupar meu espaço
Mas sei que pra isso é preciso estudar
Amigo, se achegue, vem cá me ajudar
Depois, como paga, lhe ensino a magia
De ver lua cheia brilhando de dia,
Cantando galope, na beira do mar!

COM PA DRE ME DI GAO QUE É QUE EU FA (ço) = 11 SP
EU SEI NÃO ME RE ÇO TA MA NHAA TEN ÇÃO= 11 SP
MEU GRAN DE PRO BLE MAÉ ME TRI FI CA ÇÃO= 11 SP
QUE PE GAE ME PREN DE TAL QUAL FOS SEUM LA (ço) = 11 SP
NO VER SO EU QUE ROO CU PAR MEU ES PA (ço) = 11 SP
MAS SEI QUE PRA IS SOÉ PRE CI SOES TU DAR= 11 SP
A MI GO SEA CHE GUE VEM CÁ MEA JU DAR= 11 SP
DE POIS CO MO PA GA LHEN SI NOA MA GI (a) = 11 SP
DE VER LU A CHEI A BRI LHAN DO DE DI (a) = 11 SP
CAN TAN DO GA LO PE NA BEI RA DO MAR. = 11 SP


Existem ainda outros Estilos de Cordel. Entretanto, como o presente estudo tem como objetivo familiarizar o leitor apenas com a Metrificação, não os descreveremos, o que tornaria este trabalho por demais extenso.

Leia, abaixo, as observações finais, sobre Ritmo e Tônicas:

2 jan
Compadre Lemos

Ultimas observações: O Ritmo e as Tônicas.

Para os dois últimos Estilos estudados ( Martelo Agalopado e Galope à Beira Mar) existe uma melodia tradicional, em que eles são cantados. Essa melodia, específica para cada estilo, tem um ritmo, ou andamento, para se cantar. Esse ritmo tem “batidas” mais fortes, em determinadas sílabas, chamadas “Tônicas”, que devem ser seguidos, para que a pronúncia das palavras não seja alterada, ao se cantar ou declamar a estrofe. Deve-se, pois, ao escrever, tentar encontrar as palavras certas, cujas sílabas tônicas coincidam com as “tônicas” da melodia.

Assim, temos:

No Martelo Agalopado: As tônicas devem ser: 1 2 3 4 5 6 7 8 9 10 ( Sílabas 3, 6 e 10 )

Exemplo:
vou faLAR sobre um TAL mané paPÃO
VOU FA LAR SO BREUM TAL MA NÉ PA PÃO
dos poEtas que FAzem cantoRIa
DOS PO E TAS QUE FA CAN TO RI (a).

No Galope a Beira Mar: As tônicas devem ser: 1 2 3 4 5 6 7 8 9 10 11 - ( Sílabas 2, 5, 8 e 11).

Exemplo:
ComPAdre, me DIga o que É que eu Faço
COM PA DRE ME DI GAO QUE É QUE EU FA (ço)

Eu SEI não meREço ta MA nhaa tenÇÃO
EU SEI NÃO ME RE ÇO TA MA NHAA TEN ÇÃO

Quando não se escolhem bem as palavras, nesses dois Estilos, de acordo com as tônicas da melodia, há uma diferença de pronúncia, quando se canta ou se declama o verso, que chega a doer no ouvido.

Exemplo:
Em Martelo Agalopado :

O visGO da jaCA pegou em MIM.

Quando vamos cantar ou declamar, sai:
O VIS GÚ DA JA CÁ PE GOU EM MIM
Notem que alterou a pronúncia de Visgo e Jaca. Ficou visGU e jaCÁ.

Em Galope a Beira Mar:
PasSArin que FAZ um verSO pra ciDA (de)
Quando vamos cantar ou declamar, fica:
PAS SA RIM QUE FAZ UM VER SO PRA CI DA (de) – Ou seja, muda “passaRIM pra paSSÁrim e “VERso” pra “verSÚ”.

2 jan
Compadre Lemos

Terminando, recomendo a todos os interessados, estudarem o tópico “Teoria do Cordel – Resumo”, nesta mesma Comunidade, onde estas e outras informações estão disponíveis.

Espero ter sido útil.

Quaisquer dúvidas, contem comigo.

Contatos:

Email: luzcar@oi.com.br
MSN: luscarlemos@msn.com
Ou... aqui mesmo, no Orkut.

Fraterno abraço,
Compadre Lemos.

2 jan
Compadre Lemos

A Estrada e o Poema

(Um ensaio sobre a necessidade da Metrificação na Literatura de Cordel)

Compadre Lemos – luzcar@oi.com.br

Amigo,
Tente, mas tente mesmo, ler em voz alta uma de cada vez, as estrofes abaixo:

Primeiro, esta:

Eu sou
Um homem comum, transparente, natural.
E nunca me surpreendo com o que
Não é normal.

Agora, esta:

Eu sou um homem comum,
Transparente, natural.
E nunca me surpreendo
Com o que não é normal.

Agora, por favor, me diga: qual das duas estrofes foi mais fácil de ler? Qual das duas você leu mais tranquilamente, sem tropeços, sem “acidentes”? Qual das duas comunicou mais a idéia pretendida?

Claro que a foi a segunda! Mas... por que? Se as duas dizem a mesma coisa, no mesmo idioma, por que uma é mais fácil de ler que a outra? E por que uma comunica mais?

A resposta é... Metrificação!

Um poema, uma estrofe, um verso são feitos para serem lidos, declamados e até cantados. São como uma estrada, que é feita para ser utilizada por viajantes, dirigindo seus carros. Quanto mais bem-feita, mais regular for a estrada, mais segurança vai oferecer aos motoristas e menos acidentes vai causar. Quanto mais regular for o verso, a estrofe, o poema, mais fácil vai ser a leitura e melhor a compreensão da idéia.

A largura da estrada, por exemplo, é fundamental. Imagine uma estrada que, no início, tem vinte metros de largura, e... logo depois da primeira curva essa largura é reduzida para, digamos, dez metros, sem nenhum aviso. Resultado? Acidentes, claro. Culpa dos motoristas? Claro que não! Culpa da estrada? Também não, porque estrada não é ser pensante, par levar culpa. Então, quem é o responsável? O engenheiro que projetou e construiu a estrada!..

2 jan
Compadre Lemos

O poeta é o “engenheiro” do poema. Ele o projeta e o executa. Mas quem o vai ler, declamar ou cantar, na maioria das vezes, é outra pessoa. E, se o poema é irregular, cheio de “buracos”, “alargamentos”, “estreitamentos”, e outras surpresas... coitado do declamador ou cantador! Vai quebrar a cara no segundo verso, se chegar lá!... E sem ter culpa, pois o culpado será o “poeta” ( aspas intencionais), que não observou a regularidade do poema que escreveu.

Para se medir a largura ou o tamanho de uma estrada, usa-se o Sistema Métrico. Para se medir a “largura” ou o “tamanho” de um verso, usa-se outro sistema: a Metrificação. Se, no Sistema Métrico Decimal a unidade é o Metro, na Sistema de Metrificação (ou Medição) da Poesia, usa-se a Sílaba Poética. Uma estrada que começa com vinte metros de largura tem que terminar com vinte metros. Um Folheto de Cordel cujos versos começam com sete sílabas poéticas, por exemplo, tem que terminar com versos de sete sílabas poéticas, claro! E o leitor, declamador ou cantor irá agradecer muito ao engenheiro-poeta!

Todo Poeta, sem exceção, quer ser respeitado, quer ter sua obra elogiada e reconhecida. Mas é muito bom que nós nos lembremos que, se queremos ter o respeito dos outros, temos que, em primeiro lugar, respeitar os outros.

Construir uma estrada insegura é falta de respeito para com o futuro usuário. Em alguns casos, é crime! Construir um poema de difícil leitura e pior entendimento é, no mínimo, falta de respeito para com o leitor. Pensemos nisso, no momento de escrever. Nós não escrevemos para nós mesmos. Nós escrevemos para que os outros nos leiam e nos entendam. Portanto, temos a obrigação de ser claros, regulares e obedientes às Normas do Estilo de Poesia que escolhemos. /

Não somos obrigados a escrever Literatura de Cordel. Mas, desde que, com absoluta liberdade, optamos por este Gênero Literário, assumimos, automaticamente, o compromisso de respeitar-lhes as Regras, Normas e Exigências.

domingo, 10 de abril de 2011

Transtextualidade

TRANSTEXUALIDADE


Segundo Gérard Genette, em Palimpsestes cinco são os tipos de relações transtextuais:

1. Intertextualidade, considerada como a presença efetiva de um texto em outro texto. É a copresença entre dois ou vários textos: citação, plágio, alusão Estudar a intertextualidade é analisar os elementos que se realizam dentro do texto (inter).
2. Paratextualidade, representada pelo título, subtítulo, prefácio, posfácio, notas marginais, epígrafes, ilustrações... Este campo de relações é muito vasto e inclui as notas marginais, as notas de rodapé, as notas finais, advertências, e tantos outros sinais que cercam o texto, como a própria formação da palavra está a indicar.
3. Metatextualidade, vista como a relação crítica, por excelência. É a relação de comentário que une um texto a outro texto.
4. Arquitextualidade, que estabelece uma relação do texto com o estatuto a que pertence – incluídos aqui os tipos de discurso, os modos de enunciação, os gêneros literários etc. em que o texto se inclui e que tornam cada texto único.
T 5. Hipertextualidade. Toda relação que une um texto (texto B – hipertexto) a outro texto (texto A – hipotexto).
Genette esclarece que seu conceito de transtextualidade alcança “tudo o que coloca (um texto) em relação, manifesta ou secreta, com outros textos”, ou seja, aquilo que ele chama de relações transtextuais.
Não se pode considerar, por outro lado, que as várias formas de transtextualidade apareçam como classes estanques, sem comunicação. Ao contrário, elas atuam de forma muitas vezes conjunta e complementar, sendo essas relações numerosas e decisivas na construção textual.
Vejamos algumas possibilidades:
• a arquitextualidade constitui-se quase sempre por meio da imitação; a aparência arquitextual de muitas obras é, com freqüência, demonstrada por meio de
indicadores paratextuais; tais indicadores são, por sua vez, pequenas formas de metatexto;
• o paratexto, prefacial ou outro, inclui diferentes formas de comentário;
• o hipertexto tem também valor de comentário;
• o metatexto crítico somente se realiza com a inclusão de citações (intertextos citacionais);

O hipertexto realiza-se por meio de alusões textuais ou paratextuais. Hipertexto seria, para Genette, todo texto derivado de um outro texto – que lhe é anterior –, por transformação simples, direta, ou, de forma indireta, por imitação. Engloba uma classe de gêneros, como a paródia, o pastiche, as fantasias [travestissement] (tudo é transformação: certas epopéias, certos romances, certas tragédias, certas comédias, certos poemas líricos, ao mesmo tempo, pertencem a seu gênero textual e são, também, hipertextos de outros textos já existentes). Muitas vezes, no próprio hipertexto está a marca paratextual que o liga ao hipotexto (veja-se como os títulos dados às muitas versões criadas a partir da Canção do exílio, de Gonçalves Dias, anunciam desde logo a aproximação entre elas existentes). Essa marca (esteja ela no título ou em outro recurso que aponte para o leitor a relação entre os textos) é um indicativo paratextual que o autor remete a seu leitor.

As várias formas de transtextualidade são aspectos da textualidade. Considere-se a textualidade como a característica que identifica o texto – um texto só existe por sua textualidade, ou seja, pelas características que o tornam um texto. Dessas características, fazem parte os recursos transtextuais. Mesmo transtextuais, os textos podem ser relacionados aos gêneros a que pertencem. Por exemplo, embora seja um recurso transtextual, o prefácio é um gênero reconhecido em si mesmo.

Cabe aqui um aprofundamento nas práticas englobadas no termo hipertextualidade. Genette considera a hipertextualidade como um aspecto universal da literaridade. Afirma que não há obra literária que não evoque, de alguma forma, alguma outra. Nesse sentido, todas as obras seriam hipertextuais. Destaca, no entanto, aquelas que, segundo ele, são massiva, manifesta e explicitamente uma retomada de outras.

A paródia é recurso encontrado com frequência na literatura. Reside na retomada de um texto, trabalhado com novas e diferentes intenções daquelas com que foi criado por seu autor. Encontramos paródias humorísticas, críticas, poéticas.
Detendo-se na etimologia da palavra, Genette nos faz lembrar que ode é canto, canção e para, aquilo que se desenvolve ao longo de, ao lado de. Logo, a paródia seria um contracanto, uma canção transposta.

Genette destaca três possibilidades de paródias representadas na tradição literária:
1. a aplicação de um texto nobre, modificado ou não, a um diferente assunto, geralmente vulgar;
2. a transposição de um texto nobre para um estilo vulgar;
3. o emprego de um estilo nobre (epopéia) de uma obra singular a um assunto vulgar ou não-heróico.

A forma mais rigorosa de paródia consiste na retomada de um texto conhecido para lhe dar um novo sentido ou mesmo desligá-lo de seu contexto e de seu nível de dignidade. Ela se faz, nesse caso, paródia de umas poucas frases, textos curtos, provérbios, ditos históricos tomados em outro sentido que não o original. Com essas características, funciona elegantemente como um ornamento dentro do texto que a abriga.

http://www.cce.ufsc.br/~nupill/ensino/transtextualidade.htm


Intersemiose

Mestre Latuff, ao escrever o verbete sobre "intersemioticidade" no e-dicionário de termos literários, qualifica o termo: “Em que consiste, afinal, a intersemioticidade? Qual será o alcance desse neologismo erudito, dotado de sonoridade tão sedutora para ouvidos atentos à musicalidade imperdível dos signos orais? Que olhar projeta o olho semiótico?”

Grosso modo, podemos dizer com o polêmico poeta curitibano Paulo Leminski (1944-1989) que “aqui muitos/vários códigos interpenetram-se produzindo híbridos que são os mutantes da qualidade nova”; através da intersemiose, cruzam-se “outras linguagens, outros códigos, outros recursos, outros meios” .

Na vasta nomenclatura que procura definir o ser humano - homo faber, homo sapiens, homo pictor, homo symbolicus, homo loquens... -, o homo semioticus e o homo significans surgem como corolário dos avanços da ciência, da industrialização, da tecnologia moderna e pós-moderna, enfim, que não só fragmentaram e pulverizaram o saber como multiplicaram quase ad infinitum os códigos; ao choque cultural, a partir principalmente da segunda metade do século XIX, corresponde a fissão da linguagem, que constitui o ser humano, em sua essência, conforme postulam a filosofia e os saberes estruturalistas. Se, conforme o postulado instaurador de Peirce - “o significado de um signo é um outro signo” -, a proliferação incalculável dos signos, com a segunda revolução industrial - a automação-, promoveu uma circularidade sígnica jamais vista, crescente com a tecnologia avassaladora.

Considerada como linguagem (e, também, como poética), a Arte torna-se o campo privilegiado da multiplicação e da multiplicidade de códigos, operando um milagre semiótico. Destarte, cria-se uma nova consciência de linguagem, que obriga a contínuos cotejos entre os códigos, o que constitui contínuas operações intersemióticas. No ato criativo, a visada metalinguística conduz a processos de metalinguagem analógica; os processos internos ao ato criador conduzem à natureza do signo ( “Signo”, segundo Peirce, é algo que substitui algo, para alguém, em certa medida e para certos efeitos, em certo lugar).

La Nature est un temple où de vivants piliers
Laissent parfois sortir de confuses paroles:
L’homme y passe à travers des forêts de symboles
Qui l’observent avec des regards familiers.

Comme de longs échos qui de loin se confondent
Dans une ténébreuse et profonde unité,
Vaste comme la nuit et comme la clarté,
Les parfums, les couleurs et les sons se répondent.

Il est des parfums frais comme des chairs dénfants,
Doux comme les hautbois, verts comme les prairies,
Et d’autres, corrompus, riches et triomphants,

Ayant l’expsansion des choses infinies,
Comme l’ambre, le musc, le benjoin et l’encens,
Qui chantent les transports de l’esprit et des sens.

Correspondências
A natureza é um templo em que vivas pilastras
deixam sair às vezes obscuras palavras;
o homem a percorre através de florestas de símbolos
que o observam com olhares familiares.

Como longos ecos que de longe se confundem
numa tenebrosa e profunda unidade,
vasta como a noite e como a claridade,
os perfumes, as cores e os sons se correspondem.

Há perfumes saudáveis como carnes de crianças,
doces como os oboés, verdes como as campinas,
e outros, corrompidos, ricos e triunfantes,

tendo a efusão das coisas infinitas,
como o âmbar, o almíscar, o benjoim e o incenso,
que cantam os êxtases do espírito e dos sentidos.


BAUDELAIRE, Charles, Oeuvres complétes. Paris, Oallimard, Bibliothèque de la Pléiade, 1966.

Para Ivan Junqueira, poeta e tradutor, Baudelaire, realiza, nesse célebre soneto, uma representação alegórica do mundo, que “lhe ofereça um refúgio contra a realidade da existência separada, que lhe seja capaz de fornecer as armas para o combate que se trava no plano humano ou, se se prefere, no plano poético”.

A leitura alegórica da poesia baudelairiana, fundadora da modernidade literária, propicia, de maneira instigante, uma compreensão da intersemiose, que confirma o enunciado do laureado escritor português José Saramago, segundo o qual se estabelecem, na linguagem, nexos, relações, associações entre tudo e em tudo. Será, portanto, infinito o processo da produção de sentido.

http://eulalia_isabel.sites.uol.com.br/codigosintersemioticos.htm